É sabido que uma das estratégias da mediocridade empoleirada no poder é capaz para enganar o povo, uma matéria publicada no Observatório da Imprensa, critica a mídia brasileira que, por questões de contratos publicitários com o governo, distorce matérias para esconder o resultado que uma administração equivocada, e corrupta, pode trazer para o país, para cidade, para onde se instale. Peguei em uma sugestão de matéria na página do amigo Lucas Paiva.
JORNALISMO ECONÔMICO
A cobertura gentil do rombo comercial
Por Rolf Kuntz em 06/08/2013 na edição 758
A imprensa foi boazinha ao noticiar o buraco de US$
4,99 bilhões, segundo a conta oficial, acumulado no comércio exterior de
janeiro a julho deste ano. Na cobertura imediata, grandes jornais compraram
facilmente a versão do governo: o grande problema foi a importação de
combustíveis. Na sexta-feira (2/8), o noticiário apontou o déficit como o pior
de todos os tempos, mas ficou bem na superfície. Para ir mais fundo bastaria
uma rápida leitura do relatório divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior. A história contada nas tabelas era muito mais
feia que a explicação vendida na entrevista coletiva de quinta-feira (1).
Com um mínimo de atenção, qualquer repórter poderia ter
apresentado uma narrativa bem mais interessante que a do ministério. Para
começar, o déficit é explicável apenas em parte pelo aumento das compras. O
valor exportado em sete meses, US$ 135,32 bilhões na conta oficial, foi 1,5%
menor que o de igual período do ano anterior. A despesa, US$ 140,22 bilhões,
foi 10% maior que a de janeiro a julho de 2012.
Essa elevação é atribuível apenas em parte ao aumento das
compras de combustíveis e lubrificantes –uma variação de US$ 4,13 bilhões. A
importação de bens de capital custou US$ 2,27 bilhões a mais que no ano
anterior. A de matérias-primas e bens intermediários aumentou US$ 4,52 bilhões
de um ano para outro. E ainda seria preciso contar a elevação de US$ 1,01
bilhão nas compras de bens de consumo.
Saldo acumulado
Mas é preciso reexaminar a conta da exportação, onde se encontra
um detalhe especialmente importante. Automóveis de passageiros aparecem no topo
da lista dos manufaturados, com receita de US$ 2,99 bilhões em sete meses. Até
aí, nada muito especial. Carros, autopeças e aviões são enumerados com
frequência entre os itens mais importantes da exportação industrial. O detalhe
notável é outro. Em segundo lugar, com faturamento de US$ 2,81 bilhões,
aparecem as vendas de plataformas para exploração de petróleo. Mas essas
exportações, como já foi amplamente divulgado, são fictícias. São parte de um
esquema legal, em vigor há mais de dez anos, para reduzir a tributação dos
equipamentos destinados ao setor petrolífero.
No mês anterior, o peso dessas exportações – nunca
realizadas, de fato – havia sido mencionado na entrevista coletiva de
apresentação da balança comercial. Desta vez, a conversa passou longe do
assunto e o detalhe foi menosprezado, ou ignorado, na maior parte da cobertura.
Mas as matérias teriam sido bem diferentes se mencionassem esse ponto.
Sem os US$ 2,81 bilhões das plataformas nunca embarcadas, a
exportação total teria ficado em US$ 132,42 bilhões. A receita comercial teria
sido 3,91% menor que a de janeiro a julho de 2012 (descontando-se também US$
405 milhões de plataformas “exportadas” naquele período). A conta oficial
mostraria um resultado bem pior neste ano, com um déficit de US$ 7,8 bilhões. A
exportação fictícia de plataformas é legal, mas a sua inclusão na conta de
comércio, sem ressalva, distorce os dados e prejudica a informação.
Mesmo a cobertura imediata, preparada em poucas horas para o
fechamento dos jornais, poderia ser mais completa no exame dos dados. O déficit
nas operações com petróleo e derivados, US$ 15,44 bilhões, foi 270,31% maior
que o de janeiro a julho do ano anterior – e isso parece excepcional. Mas terá
sido mesmo? Ou terá apenas ocorrido a intensificação de uma tendência?
Afinal, o saldo negativo acumulado nessa conta nos meses
correspondentes de 2012 já havia sido 164,26% maior que o de um ano antes. Tem
havido um descompasso importante entre a demanda e a oferta interna de
combustíveis e lubrificantes. Seria necessária outra reportagem para esmiuçar o
assunto, mas a mera referência ao fato já enriqueceria o material sobre a conta
de comércio.
Ferrovia bichada
Os jornais mostraram muito mais eficiência, na mesma semana,
em outras coberturas. O Estado de S.Paulonoticiou com exclusividade a
decisão da presidente Dilma Rousseff de mudar o cálculo das dívidas de estados
e municípios para facilitar os investimentos em mobilidade urbana. O dinheiro
tomado para essa finalidade ficaria fora do endividamento. Publicada a
informação, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, declarou-se contrário à
mudança, mas a presidente, segundo o jornal, continuava cobrando medidas para a
execução de sua ideia.
O noticiário da semana foi rico, em todos os grandes jornais,
de informações sobre o vai-e-vem na área fiscal, com o governo anunciando
cortes de gastos e prometendo, ao mesmo tempo, liberar R$ 6 bilhões para
emendas orçamentárias de parlamentares aliados. A cobertura avançou, também, na
estimativa de quanto o Tesouro gastará para cobrir as mudanças no setor
elétrico, anunciadas em setembro do ano passado, quando a presidente Dilma
Rousseff prometeu a redução das contas de luz. Sem a antecipação de recebíveis
de Itaipu, a conta poderá chegar a R$ 9 bilhões, segundo o Valor. No
começo da semana, oEstadão havia mencionado R$ 6,7 bilhões.
Outra boa leitura da semana foi a reportagem do Valor sobre
a inauguração frustrada Ferrovia de Integração Oeste-Leste, na Bahia. A
cerimônia deveria ter ocorrido em 30 de julho, mas nenhum metro de trilho havia
sido assentado até aquela data. Foi mais uma revisão de prazo no Programa de
Aceleração do Crescimento (PAC). Outros levantamentos, um deles do Globo,
já haviam indicado atraso médio de quatro anos nas principais obras rodoviárias
do programa. Apesar de alguns cochilos, há sinais de camisa suada na cobertura
econômica.
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Rolf Kuntz é jornalista